    
Bipolar
A paisagem a minha frente se derrete feito um quadro de Dali.
Não há calor nas horas pra aquecer meus dias sem muito sol.
Nem frio profundo no vendaval que invade minha alma.
Não há nada que justifique a variação do meu tempo.
Nenhum Deus, nenhum diabo nos meus pólos.
Não há nada!
Não há colunas, nem cordas de sustentação.
Não há mão, nem toques; nem sinfonias não há.
Não há amargo, nem doce, nem agridoce, nem equilíbrio.
Não há limpo no branco, nem pureza, nem certeza de leveza.
Não há inalação, nem oxigênio suficiente pra dois.
Então precisamos respirar boca a boca a sós.
E pressionar o peito pra aliviar a dor de nós.
Escrito por Anderson Ribeiro às 09h46
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É bem diferente do que se vê nos filmes em que um casal fica em cada uma das pontas da mesa bem extensa, muito bem decorada em que é servido o jantar à luz de velas. Lá, a mesa de madeira, igualmente extensa e bem reforçada é pra caber a família inteira e quem mais chegar. Dois bancos com encosto – desses que parecem de igreja – cerca as duas laterais maiores. Ainda na cozinha, parte da casa em que todos se reúnem, tem três fogões – um de lenha, um industrial de duas bocas e outro de seis bocas para o dia-a-dia – que servem para o preparo, em tempo integral, dos petiscos da grande festa do fim de semana.
Aos poucos vão chegando os ‘convidados’ e feito um ritual de acampamento em volta do fogo, as pessoas vão se aglomerando em torno da grande mesa. Um papo, um gole; uma lembrança, outro gole; uma batucada e lá se vai o coro de gente que gosta de brindar a vida com alegria. A Bárbara, irmã do Filipy, que puxa a cantoria, dá uma parada rápida para providenciar mais uma cerveja. “Paga mais uma aí!...”. Imediatamente era servida a bebida. Sem perder tempo, retoma o tom da música e puxa outra e mais outra. É ela também que dá o ritmo no batuque e chama a irmã Janaína para entrar no clima. Flávio não canta, mas tira onda, já Mauro tira onda, mas também canta.
As três irmãs – e não é novela da Globo, mãe e tias do Filipy –– ficam juntas e põem a conversa em dia. Relembram a vida em Pirapora, a trajetória perdida dos avós, a lacuna do passado que gostariam de preencher, mas nada que abale a harmonia. Histórias contadas, histórias encerradas. A grande família é assim, deixa Brasília mais humanizada, muito além dos traços do arquiteto. Lá, genro é da casa, sogra não é megera, netos e amigos são sempre bem vindos. O Maurinho, que já é agregado que o diga; e eu que já me sinto um dos seus, que escreva.
Escrito por Anderson Ribeiro às 11h00
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Céu de Brasília traço do arquiteto
Brasília é uma cidade estranhamente encantadora. Aqui a miséria não tem estampa e a maquiagem é uniforme. Não há muita diferença entre os lugares em suas Asas. Os problemas não são detectados a olho nu, à primeira vista. Por isso, uma semana é pouco pra saber onde está o tapete que deve ser levantado para que encontremos a poeira. Estou no meu deslumbramento e atrás da descoberta de novos espaços. Quando estiver por aqui definitivamente – e até por causa da minha profissão – farei descobertas que podem me deixar triste, isso é inevitável, mas estou fazendo o meu caminho, abrindo a minha estrada; eu, enquanto agente facilitador ou não de mim mesmo; como agente de direção do meu destino próximo, pelo menos. Foi o Filipy que disse ontem pra mim isso. "Você está derrubando as árvores e fazendo o seu caminho". Achei legal.
Estou muito confiante e seguro do que desejo nesse momento. Apreensivo também, mas bem pouco. O sentimento de mudança é maior e mais forte. O sentimento de estar crescendo, mesmo tendo ciência de que nada será fácil por aqui, daqui por diante. Longe dos meus, quase sem amigos e ainda sem saber de minhas condições reais de sobrevivência. Mas isso não me assusta; pelo contrário, isso me motiva bastante. É estranho, eu sei, mas é também gratificante saber que estou conquistando um lugar mais 'alto'; partindo pra um novo horizonte, partindo pra mudança de hábitos. No fundo isso é crescimento, pois o estranhamento é parte do crescimento e parte principal. É assim que conhecemos mais, que chegamos mais longe, que buscamos nosso lugar nos astros, com o estranhamento. E por isso, não tenho dúvidas de que será melhor, mesmo que demore um pouco. Depois conto mais.
Escrito por Anderson Ribeiro às 21h34
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Caminhos da fé
Qualquer semelhança com título de novela da Record é mera coincidência
Hoje, na minha caminhada matinal, deparei-me com uma senhora que também caminhava, mas em direção contrária (até na hora do exercício sou anti-horário). O que me chamou a atenção, de longe, foi que ela segurava um objeto com uma certa força em uma das mãos (sou péssimo de direita e esquerda). Ao cruzarmos, percebi então o tal objeto. Um crucifixo. E percebi também que ela estava pedindo as divindades alguma coisa bem (im)possível, pois caminhava e rezava com tanto fervor, segurando bem forte na ponta dos dedos, as contas do crucifixo para não perder a ‘estação’ da oração, a casa em que Maria se encontrava naquele momento de sua oração, o trem da fé e o passo da caminhada que depois de presenciar a cena, não sei se era sacrifício ou se rezava, enquanto se exercitava, pra não perder tempo.
Confesso que nunca a tinha visto antes ou não chamava minha atenção por outros predicados, sempre tenha passado despercebida. Perdoem-me o julgamento, mas ela não tinha cara de beata e por isso é que achei estranho ou pouco comum. Será que isso é a encarnação cênica da música do Gilberto Gil? “Andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá...” Não me encontrei mais com aquela senhora, mas juro que queria saber para quem rezava tanto e, perdoem-me mais uma vez a heresia, se caminhar com fé emagrece mais rápido.
Escrito por Anderson Ribeiro às 09h38
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Tudo permanecerá do jeito que tem sido?
Gilberto Gil anunciou hoje sua saída do Ministério da Cultura. Em seu lugar, fica o sociólogo e ambientalista Juca Ferreira, que já atuava como braço direito de Gil. Ferreira entra como interino, mas já trabalha em um grande pacote cultural que engloba mudanças na Lei Rouanet, de incentivos fiscais, e adoção de novos mecanismos de fomento à atividade cultural. O pacote vem sendo negociado com o governo e o Congresso (e que com a saída de Gil, nem consiga pôr em prática por questões partidárias).
Ferreira é defensor de uma reforma na Lei Rouanet, e também lutou ao lado de Gil em 2004 e 2005 pela criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), para fomentar e fiscalizar o setor. O projeto foi alvo de duras críticas, dividiu a classe artística e acabou caindo no esquecimento.
Assim como Gil, Ferreira também batalha para um aumento da verba da pasta, que era de 0,2 por cento do total do orçamento da União em 2003 e foi para 0,6 por cento em 2007. Segundo Ferreira, o ideal seria 2,5 por cento, mas no mínimo 1 por cento, como recomenda a ONU.
Gilberto Gil não sai com mágoas da pasta. Segundo ele foi uma decisão pessoal. Não estava dando para conciliar a vida política com a artística. Ele até disse que Lula, antes contrário a sua saída, se mostrou sensível e tranqüilizado. “O presidente Lula já percebeu que, agora, nós temos condição de nos afastar sem dificuldades maiores para ele, tanto do ponto de vista político quanto do desempenho técnico do ministério”, afirmou Gil.
UM BALANÇO
Gilberto Gil deixa pra trás uma pasta que foi criada em 1985, integrada a Educação. Com ele, pequenas coisas começaram a ser cutucadas e com sua chegada, deixou de ser um figurante (famoso quem?) para ser protagonista. Virou um Ministério e a partir de então, mesmo longe do ideal (e como está longe!), conseguiu incomodar muita gente. Fez com que vissem que a Cultura é também prioridade e até sua saída tentou junto às áreas econômicas do governo, aumentar orçamento da pasta.
Ele chamou para o MinC áreas que outros ministérios queriam, como a tevê pública, a questão dos direitos autorais e, até, o destino da verba de patrocínio das empresas estatais. Essas foram brigas compradas. Em algumas delas, feriu-se com amigos de longas datas, a exemplo de Caetano Veloso.
Outros ganhos do Ministro Gil foi sem dúvida a atenção que dispensou a manifestações populares, do folclores a capoeira (recentemente recebeu o título de patrimônio Cultural e Imaterial Brasileiro), mesmo causando muitos dissabores aos eruditos. Foi assim que o MinC ajudou a construir a memória do país, produzindo vídeos, cds, cartilhas, entre outros, mostrando a diversidade cultural dos Brasis. Para quem não gosta de ‘faraonismos’, deve torcer o bico mesmo. Mas é sempre bom lembrar que pequenos insetos, a exemplo dos cupins, fazem seus trabalhos internamente e depois é que o mundo percebe.
Escrito por Anderson Ribeiro às 21h26
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Margens
O rio que inspira Fernando Pessoa
Não o vejo
Não o tenho
Não o Tejo
Obs: 'Regata no Tejo' é do pintor José Augusto Coelho
Escrito por Anderson Ribeiro às 20h45
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À Tona
Algumas iniciativas são louváveis e Minas Gerais faz valer seu potencial musical para dar vazão a elas. Uma excelente idéia que os demais estados brasileiros poderiam 'copiar'. Quem sabe assim (os bons artistas que não têm lugar na grande mídia) não estariam 'nascendo' para o público (lê-se país)? Quem sabe assim não estariam esses artistas deixando a 'regionalidade' para serem universais? Bem, recebi do Makely esse release e o reproduzo aqui para conhecimento de quem quiser acessar.
A COMUM (Cooperativa da Música de Minas) foi criada oficialmente em assembléia ocorrida dia 11 de dezembro de 2007 com a missão de reunir músicos e demais profissionais envolvidos na cadeia produtiva da música como um todo. Sua área de admissão abrange todo o Estado, ou seja, qualquer profissional da música (instrumentistas, compositores, intérpretes, produtores, arranjadores, técnicos, jornalistas, designers gráficos, etc) residente e atuante em Minas pode ser um cooperado. Já sua atuação é nacional e internacional.
A diretriz da sociedade é dar alicerce a músicos que encontram dificuldades para formalizar sua atividade. Essa iniciativa, antes de mais nada, visa a tirar da informalidade o músico que atua no mercado mineiro. Além de formalizar o trabalho do músico, a cooperativa busca também a mobilização da classe, a realização de projetos e ações coletivas e se coloca como instância de interlocução com governos e instituições. Por fim, a COMUM propõe uma nova forma de relacionamento comercial, baseado em conceitos como economia criativa e redes solidárias, com a criação de um banco de serviços entre seus associados.
COMUM www.bhmusic.com.br/comum comum2008@yahoo.com.br Av. Augusto de Lima 233, sobreloja 74 (Edifício Maletta)
Makely Ka
www.autofago.blogspot.com www.makelyka.com.br
Escrito por Anderson Ribeiro às 17h17
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Brincante
Olha lá! O espetáculo popular já começou
Ouça lá! O bacamarte, que alegria! Estourou
Veja só! O povo ao redor até gostou
Mas o viajante zangado atrapalhou
Olha lá! O espetáculo popular já parou
Ouça lá! O bacamarte, que tristeza! Se calou
Veja só! O povo ao redor até vaiou
Mas o viajante zangado esperneou
Olha lá! O espetáculo popular já voltou
Ouça lá! O bacamarte, que festança! Já soou
Veja só! O povo ao redor até gritou
Mas o viajante zangado sentenciou
Olha lá! O bacamarte popular silenciou
Ouça lá! O viajante, que vexame! Desrespeitou
Veja só! O povo inconformado insinuou
E o espetáculo que era lindo acabou
NOTA: O episódio contado aqui em versos foi verídico. Aconteceu no Arraiá do Povo, na Orla de Atalaia, quando o Grupo de Bacamarteiros do Povoado Aguada do município de Carmópolis estava se apresentando e disparando seus bacamartes. Um promotor de justiça de Brasília que estava a passeio se incomodou e partiu pra cima dos brincantes (como é conhecido quem participa de grupos folclóricos) criando uma enorme confusão. A multidão que assistia se irritou, mas a polícia que rondava por perto, foi convencida pela autoridade brasiliense a acabar com a festa.
Escrito por Anderson Ribeiro às 20h35
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Olho Gordo
Ninguém mais disfarça os olhares arregalados para mim...
Nem também os comentários.
Dizem:
- Como você está gordo!
E não me importo mais com a redundância do comentário e digo:
- Ah! não diga. Mas isso é uma redondância!
Escrito por Anderson Ribeiro às 10h54
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Concretismo
No semáforo da avenida Rio de Janeiro com Saneamento ouço o vendedor entre os carros:
Água de coco!
Água-côco!
Água!
E deve completar quando parto sem comprar...
Ah!
Anderson Ribeiro
Escrito por Anderson Ribeiro às 20h28
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O mar de Cleo (parte texto)
Era um sábado à noite num bar a beira mar. Pela quantidade de mesas, aquele lugar recebia muita gente. Não que estivesse cheio, mas eram muitas e de muitos modelos e cores. Umas pintadas de verde, outras de vermelho e até sem cor alguma. Mesas, que naquele dia repousavam inertes à espera de alguém; mesas que resistiam aos ventos e à maresia eterna, acompanhadas de cadeiras que não se harmonizavam entre si. As nossas, por exemplo, tinham encostos bem altos e assentos largos. Eram feitas com tábuas grossas e por isso mesmo bastante pesadas. Cadeiras que, por sua incivilidade, contrastavam com a postura que nos obrigavam ao sentar e destoavam da mesa laboriosamente construída sem altivez.
De majestoso mesmo apenas o balcão principal. Talhado em madeira escura, lembrava um altar profano com garrafas de muitos teores, em que bêbados fiéis, devotos de tantos santos, entornavam suas doses, implorando que males não lhes chegassem perto. Pela aparência fosca daquele balcão, percebia-se que já se havia provado muitos dissabores climáticos também, mas que mesmo assim, ainda impunha um ar esplendoroso de datas soberbas; eras em que reinavam brilho e glamour; dias lastros em que lhes concediam ser o adorno principal do salão.
E por não ter mais luz e não ser mais par nos bailes que não acontecem, ficou esquecido. Brilho intenso, presença majestosa mesmo, havia chegado ao recinto. Aquele homem de cabelo em desalinho e grisalho; sem cetro em nenhuma das suas mãos fortes e; sem capa alguma que o cobrisse e acompanhasse, era rei das águas daquele oceano próximo. Velho lobo; marinheiro ancorado em sua cadeira-trono cercada de súditos agradecidos e agraciados.
Valha-me rei das intempéries! Aquele que anda por diversos elementos! Que recebe pedras e as transformam em pérolas! Bem-aventurado aquele que emana poder das entranhas! Receba uma humilde oferenda de um de seus servos. Externe seu desejo momentâneo que o realizarei sem esforço. Eis-me aqui para isto! Bastava um pedido, um pensamento, um olhar, que a mesa estava servida, ambrosia aos mortais, líquido reservado ao desvencilhamento.
Enquanto falava ia sorvendo um cigarro e outro, perdiam-se as palavras nos arabescos fantásticos da fumaça, esvaiam-se nela segredos bravios, tão sodômicos e tão pueris... tão fortes... tão densos. Aquele homem de cabelo em desalinho e grisalho parecia dominar o humor do tempo. Um grito rompante de sua boca e de repente um vento veloz vinha do mar; um choro cortante no seu rosto e uma onda algoz derrubava barrancos indefesos. Era sonho e realidade gladiando-se; era tempestade, que tão logo chegou do sul das crenças, sem piedade e corisca; rajando a linha tênue que separa mundos paralelos, como brincadeiras de quintais, jogos de rua, teatros de calçada e pandorgas no céu.
Maldita seja a claridade que nos prende ao chão! Benditos sejam os embates que nos tornam ser! Malditos os bobos sem corte que vêm em bandos! Eu sei. Aquele homem de cabelo em desalinho e grisalho escreve suas páginas com canetas mágicas; balanceia sua história com pimenta e chocolate; tempera o tempo com ervas finas e conhaque e o saboreia sempre quente como um prato bem flambado. É assim, pois atávico, que esse velho lobo vive de amar e mar... indo e vindo constante e infinito. Assim, feito notas musicais que bailam no ar e se perdem no ouvido do horizonte e rompem as fronteiras do desconhecido. E é mesmo assim, que ele enfrenta o mar agitado para retornar sempre altivo e sábio e debochado.
Escrito por Anderson Ribeiro às 01h02
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O mar de Cleo (parte poesia)
Com que entusiasmo me convida para sua casa
E me serve de sua bebida e me embriaga de seu mundo?
Com que braços me cerca de amigos e de segurança
E me dá esperança e motivos pra avançar o sinal?
Com que histórias me faz rir da vida e chorar pela vida
E também ser menor e bem maior do que imaginei ser?
Com que caneta desdém do tempo?
Com que canto escreve seu conto?
Em que vento está seu alento?
Escrito por Anderson Ribeiro às 23h46
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O texto a seguir é do meu amigo Augusto Paim. Jornalista lá dos Pampas. Um bom exemplo de como desconstruir regras jornalísticas para se escrever um bom texto. Leve, que flui feito rio; que deságua em nossa alma feito rio e nos convida a um mergulho intenso e sinestésico. Bem, é melhor ler.
Obs.: As fotos são do arquivo pessoal de Ricardo Freire.
Escrito por Anderson Ribeiro às 12h28
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Parte I

Pandorga da Lua
por Augusto Machado Paim*
augusto.paim@gmail.com
— Quero que vocês desenhem o cheiro da coisa que mais gostam.
Havia dito a professora.
Agora ela recolhia as folhas com desenhos de chocolate e outras guloseimas. Entre as folhas, o desenho de uma mulher. As crianças riram, a menina tinha errado.
— Que cheiro é esse que você desenhou?
Perguntou a professora.
— Cheiro de mãe.
Quem amarrou o meu canto
que tantos gostavam tanto?
— A educação formal não dá bola para a música e a poesia.
Diz Edu Pacheco, mestre em educação e músico.
O “caso do cheiro de mãe” foi uma exceção, aconteceu antes mesmo de a professora participar da oficina do Pandorga da Lua. Ela deu-se conta que havia algo por trás: o conselho tutelar só permitia que a menina visse a família nos finais de semana.
— O inusitado é que através de uma imagem, que podemos chamar de poética, a criança se expressou. Este é um dos focos do trabalho de poesia. A possibilidade de expressão, oportunidade de se colocar no mundo. Mas, no lugar de usar um caminho usual, a poesia cria outros espaços, outras formas de interferência na vida.
Explica Edu.
Algumas vezes, os professores começam as oficinas demonstrando tédio e incomodados por terem que se envolver com atividades que provoquem reações diferentes das habituais, que modifiquem o cotidiano escolar.
Começam.
Uma vez, uma professora já chegou dando as cartas:
— Eu não gosto desse negócio de poesia. Minha filha passa o dia inteiro em casa discutindo arte com os amigos. Em vez de sair pra rua...

Ricardo Freire, Edu Pacheco e Ângela Gomes incentivaram a professora a cantar, tocar instrumentos musicais (mesmo ela não sabendo), analisar canções, compor, criar poemas, fazer exercícios lúdicos. Ela conheceu uma porção de ritmos presentes no caldeirão musical do Rio Grande do Sul. Colou e recortou figuras para o seu travesseiro do sonho e o do pesadelo. No fim da oficina, era outra pessoa.
— Agora eu entendo porque minha filha gosta tanto de discutir arte com os amigos.
Disse.
Por que moro na cadeia,
casa apertada e feia?
Nas oficinas do Pandorga, os professores viram alunos e se colocam no lugar das crianças. Entendem o que é estar/ser inibido, o que é se expor na frente dos colegas. Depois levam tudo isso para sala de aula.
— Eles experimentam, vivenciam, refletem a criação. Dão-se conta que podem criar.
Diz Ângela, professora de educação especial, psicopedagoga e cantora. Refere-se às crianças, mas vale também para os professores.
O grupo musical Pandorga da Lua começou em 2001. O músico Ricardo Freire pegou poemas do seu amigo, psiquiatra e poeta Jaime Vaz Brasil e passou dois anos musicando-os. Fez pesquisas junto ao Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore em Porto Alegre, RS, entrevistou músicos e estudiosos da área a fim de descobrir mais detalhes sobre a origem e a execução dos ritmos que convivem na cultura musical do Rio Grande do Sul, perguntou e perguntou, de modo que em 2003 o Pandorga não só estava maduro como ficando bastante conhecido. Nas gravações, juntaram-se Lucinha Lins, Geraldo Flach, Yamandú Costa, Renato Borghetti, Luiz Carlos Borges, Mano Lima... e tantos outros. Neste período, as poesias já existiam também em forma de imagem, ilustradas pela artista plástica Paula Mastroberti.
O show de estréia foi no Teatro Treze de Maio, em Santa Maria, RS, em 2004.
Escrito por Anderson Ribeiro às 12h01
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Parte II

Ricardo estava nervoso. Dois dias antes, confessou isso a Geraldo Flach. Geraldo não faria parte do show.
— Sejas tu.
Disse Geraldo.
E Ricardo Freire foi Ricardo Freire.
O show foi um sucesso. E uma novidade: Ricardo nunca antes tocara para crianças.
Na segunda música, “O Rabo da Cobra”, quando soaram os tambores que executavam um dos ritmos afro-gaúchos, o maçambique, uma criança chorou. Ricardo fez sinal para o percussionista, começaram a tocar mais baixo, para não assustar. Ricardo e cia. deram continuidade ao show assim, com empatia, sentindo o clima da platéia, propondo brincadeiras, danças, incentivando a criançada a se expressar.
De certa forma, as oficinas do Pandorga começavam ali.
Preso dentro da gaiola,
o alpiste é só esmola.
Em 2005, o Pandorga foi para as escolas. Além das apresentações, o grande objetivo de Ricardo era experimentar a ligação que o projeto poderia ter com a educação. Nessa altura, Edu Pacheco havia se juntado ao grupo. Ele já tinha uma boa quilometragem no uso da música como instrumento pedagógico.
— Não a música para ensinar outras matérias. É a música pela música.
Diz Edu.
Pode até ser que a arte acabe levando para esse lado, para a ilustração ou aprendizado de alguma matéria. Mas a intenção é outra. É abrir um novo caminho de consciência para professores e crianças acostumadas com as rotinas do ensino convencional. É estimular a percepção, a subjetividade, a cognição, a sensibilidade. É criar um mundo interno. E externo. É apresentar o inédito para as crianças, despertar seu interesse pela busca da novidade. É apreciar, criar, fazer arte.
É aprender que, num modelo lúdico de ensino, tudo é jogo, e errar não existe.
— Na educação convencional, errar é feio. Você é avaliado por “certo ou errado”.
Diz Edu.
Mas por que errar?
Ou melhor: por que não errar?
O que pode nesse mundo
ser maior e mais bonito
do que abrir asas, voando
no azul do infinito?
Ainda em 2005, em paralelo com as experiências das oficinas, o espetáculo musical do Pandorga foi incrementado com a presença de artistas protagonizando a Camila e o Anacleto, personagens das canções de Jaime Vaz Brasil e elos de ligação e comunicação com a platéia. Um ano depois, ficou pronto o livro/cd do Pandorga da Lua. O lançamento foi no Teatro Treze de Maio.

A partir de 2007, embalado pela conquista do Prêmio Açorianos de Música Infantil, o Pandorga passou a dar vôos cada vez maiores. A convite do governo brasileiro, fez apresentações no vizinho Uruguai. O que não impediu a continuidade dos sobrevôos regionais: beneficiados pela Lei de Incentivo à Cultura municipal, Ricardo e cia. saíram com uma Kombi por distritos próximos a Santa Maria. Interagiram com crianças em ginásios, quadras de esporte, pátios de escolas (tendo duas árvores como palco), auditórios, feiras, festivais... Várias vezes foram recebidos com corais de crianças cantando os versos de Jaime Vaz Brasil. Várias foram as homenagens e retornos apaixonados pelo seu trabalho.
Por isso e por tantos outros motivos, as oficinas do Pandorga são oficinas também para Ricardo, Ângela e Edu. Eles estão sempre aprendendo e se emocionando com o que fazem. Quem sabe tanto quanto os professores que, interpretando os versos da música “O Sumiço do Céu”, costumam dizer que passaram por uma transformação pessoal durante as oficinas. São como o pássaro preso na gaiola: “o alpiste é só esmola”.
— Muitos se sentem prisioneiros do sistema formal de ensino.
Diz Ricardo.
Ou melhor, canta.
* Augusto Machado Paim é jornalista de cultura. Em 2004, foi premiado no programa Rumos Itaú Cultural de Jornalismo Cultural, e em 2007 participou da oficina de criação literária do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, em Porto Alegre-RS. Atualmente, colabora com o programa FizNotícia do canal FizTV e com o Itaú Cultural. Escreve sobre quadrinhos no www.cabruuum.blogspot.com.
Escrito por Anderson Ribeiro às 12h01
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